Nomes de quem vai concorrer só serão oficializados pelo TSE em agosto, quando começam as campanhas

 

 

Com Estadão Conteúdo

 

 

A seis meses das eleições gerais, seis nomes despontam como pré-candidatos à Presidência da República. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentará um feito inédito: ser eleito pela quarta vez para o comando do governo federal.

 

Ele deve ter como principal adversário, segundo pesquisas recentes, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — derrotado pelo petista em 2022.

 

Apesar dos anúncios de pré-candidaturas, os nomes de quem vai concorrer só serão oficializados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em agosto, quando começam as campanhas.

O campo da direita também terá outros dois nomes que apostarão no antipetismo: os ex-governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Apoiadores do clã Bolsonaro, ambos vão disputar espaço com Flávio.

Em uma corrida por fora, e com uma estrutura partidária incipiente, o ex-ministro Aldo Rebelo (DC) e o fundador do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos (Missão), também anunciaram as respectivas pré-candidaturas ao Planalto.

 

Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou, nesta terça-feira (31), que o vice Geraldo Alckmin (PSB) estará na chapa para concorrer à reeleição na disputa presidencial. O anúncio do petista ocorreu durante reunião com ministros no Palácio do Planalto.

Lula tentará o quarto mandato nas eleições deste ano. O chefe do Executivo completará 81 anos em outubro e será o candidato mais velho neste pleito presidencial. O petista se elegeu em 2002, em 2006 e em 2022.

 

Flávio Bolsonaro (PL)

Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de 44 anos, tentará o que o pai não conseguiu: vencer Lula em uma disputa presidencial. O filho mais velho do ex-chefe do Executivo federal anunciou, em dezembro último, que se candidataria neste ano.

Flávio se tornou a opção do clã da Zona Oeste do Rio de Janeiro após o STF (Supremo Tribunal Federal) condenar Jair a 27 anos e 3 meses de prisão, pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, deterioração de patrimônio tombado e dano qualificado contra o patrimônio da União.

 

Ronaldo Caiado (PSD)

Médico ortopedista, Ronaldo Caiado (PSD), de 76 anos, construiu a carreira política em Goiás: foi deputado, senador e governa o estado desde 2019. O chefe do Palácio das Esmeraldas foi escolhido pelo partido ao qual se filiou para disputar o pleito de outubro.

 

O PSD anunciou a pré-candidatura de Caiado nessa segunda-feira (30), após a desistência do correligionário e governador do Paraná, Ratinho Júnior. A definição pelo nome de Caiado se deu após semanas de articulação nos bastidores e encerrou um processo interno que o opunha ao governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

 

Romeu Zema (Novo)

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), de 61 anos, que renunciou ao cargo em 22 de março, disse à reportagem que mantém a candidatura a presidente da República e que considera positivo ter vários candidatos do mesmo espectro político para concorrer contra o presidente Lula.

 

Ele acrescentou que, em conversa com Jair Bolsonaro no ano passado, o ex-presidente defendeu que a direita tivesse mais de um presidenciável na disputa. Para Zema, o leque aberto fortalece o campo político-ideológico em um eventual segundo turno contra o petista.

 

Renan Santos (Missão)

Fundador do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos, de 42 anos, é pré-candidato à Presidência pelo Missão. Entre os apoiadores, ele ganhou um apelido: “Javier Milei brasileiro”. A comparação com o presidente argentino vai além do cabelo bagunçado e de shows de rock — pois ambos são vocalistas de bandas.

 

Assim como Milei, Renan apresenta comportamento intempestivo e aposta na força das mídias sociais para chegar ao Palácio do Planalto. Embora ainda seja desconhecido pela maioria do eleitorado, ele tem crescido nas intenções de voto dos jovens da geração Z, segundo pesquisas recentes.

 

Aldo Rebelo (DC)

Alagoano de Viçosa, Aldo Ribeiro, de 70 anos, é jornalista. Nos anos 1980, atuou como presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes). Começou na política como vereador de São Paulo. Depois, foi deputado por seis mandatos; presidente da Câmara; e ministro nos mandatos de Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT). Agora, é pré-candidato à Presidência pelo Democracia Cristã.

 

Em dezembro último, o ex-ministro lançou a pré-candidatura, com base em quatro ”Rs”: retomada do crescimento; redução das desigualdades; revalorização da democracia; e reconstrução da agenda de defesa nacional. Antes aliado de Lula, Rebelo atualmente faz críticas ao governo, bem como a organizações ligadas ao meio ambiente e aos povos indígenas.

 

 

Posted On Quarta, 01 Abril 2026 04:32 Escrito por

Presidente pediu atuação mais ativa nas eleições, fez críticas a Flávio Bolsonaro e anunciou reforço na estratégia de divulgação da gestão petista

 

 

Por Hariane Bittencourt

 

 

O presidente Lula (PT) aproveitou a reunião ministerial desta terça-feira (31) para cobrar participação ativa dos ministros na estratégia de comunicação do governo, que será reforçada nos próximos dias, e pedir que os comandados saiam da defensiva e partam para o ataque em seus discursos e entregas durante o período eleitoral.

Em sua fala ao final do encontro, fechada à imprensa, Lula criticou as recentes manifestações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante uma conferência conservadora no último fim de semana, nos Estados Unidos.

 

Segundo fontes ouvidas pelo SBT News, o petista afirmou que seu principal opositor na corrida ao Palácio do Planalto adota uma postura de entreguismo do Brasil, que põe em cheque a soberania nacional — uma das principais bandeiras do governo, que será usada durante a campanha eleitoral.

O presidente pediu que os ministros não fujam de embates durante as eleições. O recado foi endereçado tanto aos que estão de saída da Esplanada quanto aos recém-chegados aos comandos dos ministérios. Mais do que responder a ataques dos opositores, Lula foi enfático ao demandar que os comandados busquem o enfrentamento político.

 

Antes da fala do petista, coube ao ministro Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação Social (Secom), apresentar aos colegas de Esplanada dos Ministérios os recursos adotados pelo governo para comunicar as entregas da gestão petista até aqui. O investimento em vídeos e publicações nas redes sociais, com formato mais direcionado aos jovens, foi mencionado.

Apesar disso, Sidônio transmitiu a avaliação interna de que o governo ainda enfrenta problemas de comunicação. O ministro citou a falta de uma ação política de divulgação — o que, segundo ele, será determinante no período eleitoral.

O ministro da Secom também anunciou que, a partir da semana que vem, o governo vai rodar comerciais por estados mostrando as principais obras e entregas de Lula nas regiões do país.

 

O alcance da medida direcionada, no entanto, é visto como limitado. Por isso, Sidônio pediu aos colegas que façam uma divulgação orgânica das ações do governo.

 

A reunião durou cerca de duas horas e meia e aconteceu no Palácio do Planalto. Também falaram o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e da Casa Civil, Rui Costa.

 

O encontro foi o último antes das mudanças nos ministérios motivadas pelas eleições de 2026. Lula confirmou as saídas de 18 ministros, sendo 14 somente hoje, mas a expectativa é de que pelo menos 20 ministérios passem por alterações nos próximos dias.

 

 

Posted On Quarta, 01 Abril 2026 04:30 Escrito por

Luiz Inácio Lula da Silva confirmou nesta terça-feira, 31, que seu vice Geraldo Alckmin estará em sua chapa para concorrer à reeleição na disputa presidencial deste ano. A escolha de 

 

 

Por Gabriel Fardin

 

O anúncio foi feito por Lula em reunião no Palácio do Planalto. O vice-presidente Geraldo Alckmin acumula a função com a de ministro da Indústria e Comércio e deverá sair do ministério para disputar a presidência ao seu lado, de novo como vice.

 

Nas eleições de 2022, a transferência de Alckmin do falido PSDB para o PSB, seguido de sua indicação como vice da chapa de Lula, foi o selar do seu pacto com a frente ampla, comprovando sua disposição absoluta de governar garantindo os interesses do grande capital financeiro, industrial e do agronegócio.

 

Geraldo Alckmin, que foi um dos figurões neoliberais do PSDB, foi responsável por todo tipo de ataque e atrocidades contra a classe trabalhadora enquanto governou São Paulo. Dentre as barbáries mais emblemáticas que executou em seu governo está o massacre da comunidade de Pinheirinhos, em São José dos Campos, em 2012. Em 2015, mais de 200 escolas públicas foram ocupadas contra o plano de reorganização escolar de Alckmin, após cerca de 3 meses de greve dos professores e trabalhadores da educação. Alckmin é uma figura odiada pela juventude e pela classe trabalhadora também devido a brutais repressões policiais contra as manifestações de rua durante seu governo.

 

A escolha de Alckmin para ser vice de Lula em 2022 e agora em 2026, é mais que um símbolo da disposição de Lula para com a direita e empresários, é um membro integrante e atuante de seu governo. Não à toa nas eleições de 2022, durante as eleições, Lula afirmava que seria um governo de Lula e de Alckmin.

 

Tal como prometido, durante todo o terceiro governo de Lula (2022-2026), para além do ministério estratégico assumido pelo ex-tucano, foram inúmeros momentos em que Alckmin assumiu negociações e tomou a frente da política do governo federal, por exemplo na negociação com Trump frente às tentativas de interferir na política brasileira. O resultado das negociações foram anunciadas por Lula com o slogan de “petroquímica”, comemorando a entrega do petróleo brasileiro para o imperialismo dos EUA e avançando sob a foz do rio Amazonas.

 

O arcabouço fiscal (novo teto de gastos), bem como todas as privatizações feitas no governo Lula, são o resultado desta frente ampla que incorpora o agronegócio, a globo, o judiciário, o centrão, setores da direita e até da extrema direita, como Damares Alves. Neste sentido, ao anunciar Alckmin para ser seu vice em 2026, Lula dobra a aposta em seu projeto de conciliação de classes privatista, neoliberal e de ajuste fiscal, sinalizando ao capital financeiro sua disposição de repetir cada um dos ataques realizados contra a classe trabalhadora que veio de seu governo durante seu terceiro mandato.

 

 

 

Posted On Terça, 31 Março 2026 17:04 Escrito por

Encontro ocorre às vésperas do prazo de desincompatibilização, que marca a saída de ministros para a disputa do pleito de outubro

 

 

Com R7 e Estadão

 

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará nesta terça-feira (31) a última reunião ministerial com a atual composição da Esplanada, antes da saída de ministros que devem disputar as eleições de 2026.

 

O calendário eleitoral estabelece que ocupantes de cargos no Executivo que desejam participar do pleito precisam deixar seus postos até o próximo sábado (4).

A exigência abre caminho para uma reforma ministerial e deve provocar uma série de trocas no primeiro escalão do governo.

 

Até o momento, está confirmado que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deixará o cargo para concorrer ao governo de São Paulo. Também é certa a saída do chefe da Casa Civil, Rui Costa, que deve disputar o Senado pela Bahia.

A expectativa é de que outras mudanças ocorram nos próximos dias, à medida que se aproxima o prazo de desincompatibilização.

Um mapeamento anterior feito pelo próprio governo indicava que mais de 20 ministros eram cotados para deixar os cargos e participar da disputa, o que pode ampliar o alcance da reforma ministerial.

 

Ministros com saída confirmada

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já deixou o governo e lançou pré-candidatura ao governo de São Paulo.

O chefe da Casa Civil, Rui Costa, também se afastará do posto e concorrerá ao Senado pela Bahia.

Podem disputar governos estaduais

O ministro dos Transportes, Renan Filho, é cotado para disputar o Governo de Alagoas.

O ministro da Educação, Camilo Santana, deve ser candidato ao Governo do Ceará.

Podem disputar o Senado

O ministro do Esporte, André Fufuca, pode ser candidato ao Senado pelo Maranhão.

O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, é cotado para disputar o Senado pelo Amapá.

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, é apontada como possível candidata nas eleições.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, é cotada para uma disputa ao Senado.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, deve tentar a reeleição ao Senado por Mato Grosso.

A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, deve disputar o Senado pelo Paraná.

Podem disputar a Câmara dos Deputados

O ministro das Cidades, Jader Filho, deve concorrer a deputado federal pelo Pará.

O ministro da Pesca, André de Paula, pode disputar vaga na Câmara por Pernambuco.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, avalia candidatura a deputada federal pelo Rio de Janeiro.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, deve disputar a reeleição como deputado federal por São Paulo.

A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, deve buscar a reeleição como deputada federal.

O ministro da Previdência, Wolney Queiroz, também é cotado para disputar vaga na Câmara por Pernambuco.

O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, planeja candidatura à reeleição para deputado.

Podem disputar assembleias estaduais

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, deve concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Situações indefinidas

O ministro do Empreendedorismo, Márcio França, avalia disputar um cargo eletivo em São Paulo.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pode concorrer a um cargo por Minas Gerais.

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, deve participar da articulação eleitoral e é cotado para compor chapa em 2026.

O ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, deve deixar o governo para fazer o marketing da campanha de reeleição de Lula.

 

 

Posted On Terça, 31 Março 2026 04:26 Escrito por

OLHO NO OLHO

 

Por Edson Rodrigues

 

 

A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é um dos capítulos mais emblemáticos da história política brasileira. De origem humilde, migrante nordestino e operário metalúrgico, Lula construiu sua liderança a partir das lutas sindicais no ABC Paulista, tornando-se uma voz decisiva na redemocratização do país. Sua ascensão à presidência, após sucessivas tentativas eleitorais, é marcada pela persistência, pela capacidade de diálogo e pela habilidade de se conectar com as demandas populares — qualidades que, segundo o biógrafo entrevistado, são fundamentais para uma condução política bem-sucedida.

Qualidades que inspiram

O biógrafo destaca que Lula soube transformar derrotas em aprendizado, mantendo firmeza de propósito e resiliência diante das adversidades. Sua habilidade de negociar com diferentes forças sociais e políticas, sem perder a proximidade com o povo, consolidou sua imagem como líder capaz de unir e mobilizar. Essa combinação de persistência, diálogo e visão estratégica é apontada como essencial para qualquer político que aspire a construir uma carreira sólida e duradoura.
Programas e conquistas que consolidaram sua imagem

Durante seus dois primeiros mandatos como presidente, Lula lançou programas que se tornaram marcos de sua gestão e reforçaram sua conexão com a população. O Bolsa Família, por exemplo, ampliou o acesso de milhões de brasileiros a condições mínimas de dignidade, enquanto políticas de valorização do salário mínimo e expansão do crédito popular impulsionaram o consumo interno e reduziram desigualdades. Além disso, sua habilidade de articular alianças políticas garantiu estabilidade e governabilidade, mesmo em cenários adversos.

Lições para o Tocantins

No contexto tocantinense, onde muitos líderes ainda buscam afirmar sua identidade política, a experiência de Lula oferece lições valiosas. A capacidade de ouvir a população, de se manter fiel às causas sociais e de articular alianças estratégicas pode servir de guia para aqueles que desejam fortalecer a democracia e ampliar sua legitimidade. Mais do que um exemplo de sucesso individual, a trajetória de Lula mostra que a política exige paciência, compromisso e, sobretudo, conexão genuína com as necessidades do povo.

Confira, abaixo, a entrevista com o biógrafo de Lula, que inspirou esta reflexão:

 

'PT envelheceu e não há gente nova dizendo não para Lula', diz biógrafo

 

Adriana Negreiros

 

Nas mais de 20 viagens internacionais que fez com Lula para entrevistá-lo, o escritor Fernando Morais ouviu do presidente relatos de uma intimidade que, por vezes, soavam desconcertantes. Nessas horas, alertava-o de que estava ali como jornalista, empenhado em coletar informações para os livros que escreveria, e não como amigo. Os dois se conhecem há cerca de 50 anos e têm quase a mesma idade — Morais, 79; Lula, 80.

Tudo o que ele lhe contava, advertia Morais, poderia ser usado na biografia.

A reação de Lula mediante o lembrete era sempre a mesma: "Fernando, você cuida da porra do seu livro e eu cuido da porra da minha vida".

 

A história não está no segundo volume da biografia "Lula", recém-lançada pela Companhia das Letras (352 páginas; R$ 89,90, livro físico, e R$ 39,90, e-book), mas é contada por Morais para reforçar um traço do personagem que ele constrói no livro: um homem espontâneo, que diz palavrões e age por impulso.

"Do contrário seria um Lula de bronze montado a cavalo na praça, e o leitor gosta de gente", diz Morais.

Com o segundo volume, que acompanha Lula de 1982 a 2002, Fernando Morais considera encerrada a biografia do "operário que chegou à Presidência". Falta ainda a do presidente, que constará do terceiro volume, ainda sem data para lançamento.

Aos 80 anos, cercado por aliados e assessores que não ousam discordar dele, Lula entra na sua última disputa presidencial com uma diferença marcante do líder que Morais apresenta em seu novo livro — um político que detestava o isolamento e tinha no entorno gente disposta a lhe dizer não, ainda que ele costume "espernear" quando contrariado, como revela o biógrafo.

Uma exceção apontada por Morais é o ex-deputado federal José Dirceu, que nem no governo está.

"O PT envelheceu e essa geração nova tem no Lula uma figura muito reverencial", diz o biógrafo.

 

 

Nessa entrevista ao UOL, Fernando Morais afirma que Lula precisou "vencer o PT" para se firmar como um político conciliador — exemplo desse seu caráter, diz, foi a aproximação com o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, então presidente nacional do PSDB, com quem planejou formar uma chapa para concorrer à Presidência em 1994.

 

Também chama a atenção para um aspecto revelado no livro: ao longo de sua trajetória, Lula não conseguiu formar herdeiros de seu projeto político.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Dos que dizem não, só sobrou Dirceu

Na biografia, Fernando Morais descreve situações em que Lula é confrontado por seus interlocutores no PT — hoje, afirma, o presidente não conta mais com aliados dispostos a apontar seus erros.

Desse anel político que cercava o Lula e tinha coragem de dizer não para ele, só sobrou o [ex-deputado federal] José Dirceu. É o único que continua dizendo não para o Lula quando acha que tem que dizer.

O [ex-deputado federal] Luiz Gushiken, que infelizmente morreu, era uma referência muito forte disso. Era um quadraço político, capaz de dizer "Lula, não faz isso que é besteira, você está indo para o caminho errado".

E tem uma coisa curiosa: às vezes, o Lula esperneia muito. São dois traços que aparecem nesse livro. O primeiro é que ele esperneia quando é contrariado. Mas, muitas vezes, acaba aceitando a sugestão que não engoliu primeiro.

 

Ele tem uma absoluta incapacidade de perder uma eleição. Entra em depressão profunda. Todas as vezes em que perdeu [foram três derrotas na disputa presidencial: 1989, 1994 e 1998], a primeira decisão dele é a seguinte: 'Não volto mais, não brinco mais. Não quero mais participar, não vou ser candidato'. Todas as vezes, acabou voltando.
O partido envelheceu. Não há gente nova dizendo não para o Lula. Essa geração nova que chegou ao PT tem nele uma figura muito reverencial. Esse povo não conviveu com o Lula em porta de fábrica, e sim com o Lula presidente da República, o que já dificulta um pouco dizer: 'Meu caro, você está errado'.
Na parede do escritório, uma caixa de charutos cubanos, presente de Lula (à esq.) e um bilhete do líder cubano Fidel Castro a Morais, em 1977: desejo de "maiores êxitos" ao "jovem e brilhante" escritor

Na parede do escritório, uma caixa de charutos cubanos, presente de Lula (à esq.) e um bilhete do líder cubano Fidel Castro a Morais, em 1977: desejo de "maiores êxitos" ao "jovem e brilhante" escritor Imagem: Daniela Toviansky - 23.mar.26/UOL

A falta de herdeiro político

Ao longo da trajetória como líder político, Lula não conseguiu formar quadros que possam sucedê-lo, avalia Morais. O escritor afirma, porém, que essa é uma preocupação atual do presidente.

 

Era óbvio que havia três herdeiros: Dirceu, Gushiken e o [ex-ministro] Antonio Palocci. O Gushiken morreu, Palocci saiu pela porta dos fundos, sobrou Dirceu. Mas é difícil imaginá-lo como herdeiro do Lula tendo hoje 80 anos. Então há uma preocupação do Lula em rejuvenescer e refrescar o partido.
Um exemplo é a vereadora de São Paulo Luna Zarattini [a mais votada na história do PT]. O plano dela era esperar para ser candidata a prefeita de São Paulo nas próximas eleições. Lula já a orientou a ser candidata a deputada federal.

A mesma coisa com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges. Há muito tempo não aparece uma liderança sindical disputando a eleição. Ele vai ser candidato a deputado federal.

Há uma preocupação dentro do partido. No livro, dá para ver claramente que as pessoas vão passando, que não surgiu uma geração de herdeiros do Lula.
Curiosamente, Lula cobrava muito isso do [então presidente da Venezuela] Hugo Chávez. Dizia: 'Você vai morrer um dia, eu vou morrer um dia, nós todos vamos morrer um dia. Tem que pensar em quem vai te suceder'. Deu o que deu na Venezuela.

O lado negociador

A ideia de um Lula "paz e amor" em contraposição à do líder radical é uma construção midiática, segundo Fernando Morais. Ele afirma que o presidente sempre teve espírito conciliador, mas não pôde manifestá-lo desde a eleição de 1989 devido a resistências no PT.

Não é uma casualidade que Lula tenha sido formado na luta sindical. Durante o dia, punha 150 mil pessoas no estádio de Vila Euclides [em São Bernardo do Campo]. De noite, era obrigado a ir para Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] negociar com os patrões.

Esse lado dele de dar porrada no Trump e depois fazer as pazes não tem novidade nenhuma. Esse Lula negociador, que é capaz de distribuir patadas e depois abraçar, soprar e morder ao mesmo tempo é o Lula verdadeiro.

O retrato do Lula radical, do porra-louca, que distribuía patada para todo lado é um traço do Lula. O Lula verdadeiro é esse Lula que negocia.
Até hoje, ele dá a impressão de que leva a sério o seguinte conselho do [economista] Celso Furtado [morto em 2004]: 'Lula, aprenda a conviver com a extrema esquerda, porque é ela que permite que a gente não vá muito para extrema direita'.

Dentro do PT, Lula convive com tendências de extrema esquerda que fazem e dizem o diabo dele.

A chapa que uniria PT e PSDB em 94

O segundo volume da biografia de Lula revela os bastidores de uma negociação que poderia ter resultado na aliança PT-PSDB na Presidência: uma chapa formada por Lula e pelo então presidente nacional dos tucanos, o cearense Tasso Jereissati.

Se dependesse mais dele e menos do PT, Lula teria manifestado isso [o espírito conciliador] na primeira e na segunda eleição [1989 e 1994]. Ele só conseguiu vencer o PT na terceira eleição [2002], quando chamou o [empresário] José Alencar [então no PL] para ser companheiro dele.

Isso talvez tivesse permitido que ele ganhasse a eleição do Fernando Collor em 1989, em vez de fazer uma chapa puro sangue [o vice foi José Paulo Bisol, do PSB]. Então, quando descobri que ele tinha mantido um namoro secreto com o Tasso, em 1994, fui atrás do assunto.

Os dois tinham encontros secretos, tiveram um almoço no restaurantezinho vagabundo que tem perto do Instituto Lula [em São Paulo], na maior moita. Tasso não queria, mas acabou falando comigo sobre a dobradinha. Era Lula presidente e Tasso vice, já estava montado. Eles trocavam bilhetinhos. Tenho uma foto da agenda do Lula: almoço com Tasso Jereissati.
Paralelamente, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, veio com o Plano Real, que passou que nem um caminhão. Como escrevo no livro, o casamento entre Lula e Tasso não morreu de morte morrida, mas de atropelamento. Foram atropelados por um caminhão sem freio, pilotado pelo FHC.
Se Lula tivesse feito aquela aliança com Tasso, já teria se vacinado contra os preconceitos do mercado e da elite. Isso teria mudado a história do Brasil.

US$ 50 mil para Lula, US$ 5 milhões para Collor

 

Ao ouvir histórias de Lula, algumas delas engraçadas, Morais preocupou-se em não transformar o livro em um "conjunto de anedotas", como a que envolve o banqueiro Joseph Safra (1938-2020), que era o homem mais rico do Brasil.

Em 1989, Safra se encanta com Lula e faz uma doação de US$ 50 mil para a campanha. Era a maior doação que a campanha tinha recebido.

Foi uma alegria no comitê de campanha, abriram uma garrafa de champanhe nacional para celebrar. Aquela era uma campanha miserável, franciscana, que tinha como único bem um caminhão do Palocci em Ribeirão Preto (SP).

 

Muitos anos depois, quando Lula já era ex-presidente, ele encontrou Safra, que disse a ele: 'Saí do encontro com você, fui encontrar o Fernando Collor e doei US$ 5 milhões para ele'.

 

3º mandato não deve ser biografado

No terceiro volume da biografia de Lula, Morais pretende descrever a trajetória do petista entre o primeiro governo (2003-2006) e a vitória sobre Jair Bolsonaro (PL), em 2022. Não tem planos de descrever o terceiro e um eventual quarto mandato — que, na sua avaliação, definirá, caso ocorra, como Lula entrará para a história, em comparação com o ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954).

Acho que nossos tataranetos, quando olharem para esse período, vão ver o Lula como figura mais expressiva do que Getúlio Vargas. E isso quem está falando é um getulista.
Estamos na iminência de tê-lo diante do quarto e último mandato. É esse mandato que vai determinar se ele vai entrar para a história pela porta da frente.

Hoje, se desistir de ser candidato, Lula já faz parte da história do Brasil. De igual para igual com Getúlio Vargas, talvez com mais relevância.

Mas estou convencido de que, se ele for reeleito presidente, é esse mandato que vai determinar a porta da história pela qual ele vai entrar.

 

 

Posted On Domingo, 29 Março 2026 06:33 Escrito por
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