“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de novembro de 2025
DA INTERCEPT BRASIL
Por: Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker, Mauricio Moraes
Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.
A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
Os registros incluem um cronograma de desembolso, um comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros oito pagamentos previstos para o projeto.

Senador Flávio Bolsonaro
O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.
As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem criado”.
Quando foi noticiado, em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.
“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”, afirmou o senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes, ele classificou o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a todo o país”.
Na manhã da quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida, deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente da corte.
Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro também foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo Bolsonaro e Mario Frias também não responderam aos questionamentos enviados pelo Intercept. O espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.
Vorcaro bancou filme do clã Bolsonaro
Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2 milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Os registros ainda sinalizam a participação direta nas operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como o principal operador financeiro de Vorcaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos. Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e de redes sociais.
De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e, no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de proximidade pessoal.
As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em relação a outros compromissos financeiros.
O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
‘Flavio está ciente de tudo’
A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em Brasília.
Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está ciente de tudo”.
Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.
O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.
A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um telefonema, se levanta e sai da sala.
As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua cadeira poucos minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.
Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.
Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para destravar os contratos e iniciar os aportes.

No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou atras aqui”.
As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.
No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2 milhões de dólares.

Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.
As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre Investimentos e Participações.
Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de que Vorcaro atuaria como dono oculto da empresa.
Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão, investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da companhia.
Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros, Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.
O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece no registro como a remetente do valor.

O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e Participações, também foi contatado pela reportagem. No entanto, não houve retorno até a publicação.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas.
Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo Havengate.
Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de desembolsos indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de 2025.

Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal. Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail e via mensagem feitos pelo Intercept.
Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’
No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.
No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.
O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do contato direto com Flávio Bolsonaro.
Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6 milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9 milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda afirmou estar “monitorando essa reta final”.
A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de paralisação da produção do filme.
Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção. “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.
Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.
Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.
Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado a venda do Master.
‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’
As conversas seguintes mostram a manutenção do contato frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.
Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou “14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou: “Deixa comigo”.
No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos registros, se o jantar de fato ocorreu.
Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não houve resposta até o momento de publicação.
No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida, diz: “Ficou perfeito”.
Em dezembro de 2025, o Intercept revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos questionamentos para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.
O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.
Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa, Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva, Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara
Ministros do governo Lula e lideranças da Câmara dos Deputados acordaram, nesta quarta-feira (13), que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6x1 deve contar com descanso remunerado de dois dias por semana, por meio da escala 5x2, além de reduzir a jornada semanal das atuais 44 para 40 horas.
Por Lucas Pordeus León
Ficou acordado também que, além da PEC, será aprovado o projeto de lei (PL) com urgência constitucional enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para dar celeridade à pauta.
No caso do PL, ficou definido que ele vai tratar de temas específicos de algumas categorias, além servir para ajustar a atual legislação à nova PEC.
“Estabelecemos que o encaminhamento da PEC será pela redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas, com dois dias de descanso, sem redução salarial. Nós queremos também fortalecer as convenções coletivas para que elas possam tratar das particularidades de cada setor”, informou o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).
Além de Motta, participaram da reunião o relator da PEC, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), junto com outros membros da Comissão Especial que debate o tema, além dos ministros do Trabalho, Luiz Marinho, do Planejamento, Bruno Moretti, e das Relações Institucionais, José Guimarães.
O ministro do Trabalho Luiz Marinho comentou que o Brasil caminha “a passos largos” para aprovar a PEC no Parlamento "e delegando, para o projeto de lei, as especificidades para complementar a PEC", de forma a valorizar a negociação coletiva e para que "as coisas fiquem redondas para trabalhadores e trabalhadoras, e também para todos os empresários”.
A Comissão Especial que analisa o tema se comprometeu a votar o parecer da PEC relatado por Leo Prates no dia 27 de maio, com o tema seguindo para o plenário no dia 28 de maio. Se aprovado na Câmara, o tema segue para análise do Senado
A Comissão analisa duas PEC, uma do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e outra da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que vinham pedindo a redução da jornada para 36 horas semanais, além do fim da escala 6x1.
O governo defende votar o tema nas duas Casas ainda neste semestre, sem regra de transição, para que tenha efeito imediato. O tema foi a reivindicação principal dos atos do dia do trabalhador deste ano, o 1º de maio.
Se aprovada a mudança, o Brasil se soma ao México, Colômbia e Chile como mais um país da América Latina a reduzir a jornada de trabalho na atual década.
Da Gazeta do Cerrado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta terça-feira, 12, a revogação da chamada “taxa das blusinhas”, medida que instituía cobrança de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares realizadas em plataformas como Shopee, Shein e AliExpress. A decisão encerra um dos episódios tributários mais contestados pelos consumidores brasileiros nos últimos meses.
A revogação veio após pressão crescente de parlamentares de diferentes partidos, entidades do comércio e organizações de defesa do consumidor. Entre os primeiros a se movimentar contra a cobrança no Congresso Nacional esteve o deputado federal Ricardo Ayres (Republicanos-TO), que ainda nas semanas iniciais de vigência da taxa apresentou projeto de lei propondo sua revogação e encaminhou indicação formal ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pedindo revisão imediata da medida. O parlamentar também participou de reuniões no ministério defendendo mudanças na política tributária aplicada às importações de pequeno valor.
O principal argumento levantado pelos críticos da taxa era o impacto sobre a população de menor renda, que passou a utilizar as plataformas internacionais como alternativa de consumo mais acessível. Com o tempo, pesquisas e levantamentos mostraram que a medida não gerou o crescimento esperado no emprego do varejo nacional, justificativa usada pelo governo na época da adoção. Também foram registradas queda no consumo das famílias de baixa renda e rejeição popular expressiva em todo o país.
Por João José Oliveira - uol
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, em teleconferência de resultados de 1º trimestre com analistas, também falou sobre reajustes de preços da gasolina em breve Imagem: Reprodução
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, sinalizou hoje que o preço da gasolina para as distribuidoras vai subir em breve, enquanto a estatal avalia medidas para reduzir o impacto da alta do petróleo.
O que aconteceu
O aumento no preço da gasolina deve ocorrer rapidamente. Magda Chambriard afirmou hoje, em conferência com analistas, que o reajuste para as distribuidoras acontecerá "já, já".
Quando estamos observando aumento do preço da gasolina, fazemos isso frente ao preço do etanol no mercado brasileiro nos últimos pouco mais de 15 dias. E nós tivemos um preço do etanol baixando bastante no mercado brasileiro. Ele é competidor, sim, do nosso mercado. Então, nós estamos agora tratando desse aumento de gasolina, mas sempre de olho no nosso market share e na evolução do mercado do etanol. Magda Chambriard, presidente da Petrobras
Na última mudança de preços, valor da gasolina da Petrobras caiu. Em 27 de janeiro, Petrobras reduziu os preços de venda de gasolina para as distribuidoras em 5,2%. O percentual foi equivalente a uma redução de R$ 0,14 por litro do combustível, de R$ 2,71 para R$ 2,57 nas distribuidoras.
Petrobras está analisando medida para atenuar alta de preço da gasolina. Segundo Magda Chambriard, a empresa está discutindo com o governo iniciativa que possa suavizar o impacto dos aumentos do petróleo provocados pela guerra no Oriente Médio sobre os preços da gasolina no Brasil. "Estamos trabalhando na questão da gasolina. Em breve, os senhores vão ter também boas notícias em relação à nossa gasolina", disse a analistas na teleconferência.
Governo lançou, no começo de abril, medidas para conter reajustes de preços de combustíveis. O pacote de medidas busca conter os impactos da alta dos combustíveis provocada pela disparada do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio, com novas subvenções para diesel e GLP, isenção de tributos sobre biodiesel e querosene de aviação (QAV) e endurecimento das punições por preços abusivos.
Após fechamento do trimestre, escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã afetou fornecimento mundial de petróleo. Entre os ataques, o fechamento do Estreito de Hormuz passou a pressionar ainda mais o mercado internacional de combustíveis. O estreito concentra cerca de 20% do tráfego global da commodity.
Autossuficiência
Petrobras está ampliando capacidade de produção para atender 100% da demanda nacional de diesel e gasolina. A presidente da empresa, Magda Chambriard, disse que a companhia está revendo o plano de negócios de longo prazo, que valerá de 2027 a 2031, para elevar a produção e ser capaz de atender todo o consumo doméstico de diesel e gasolina.
Com a guerra, com os resultados alcançados pela companhia e pela confiança que o mercado brasileiro tem na Petrobras, estamos tratando de forma segura e rentável analisar a oportunidade que muito provavelmente virá no nosso próximo plano de negócio de atingir a autossuficiência brasileira. Magda Chambriard, presidente da Petrobras
Plano atual, 2026-2030, prevê elevar capacidade da Petrobras para atender 85% da demanda local por diesel. O país importa cerca de 25% a 30% do que consome desse combustível. Segundo Chambriard, a empresa será capaz de aumentar essa meta a partir dos ganhos de produtividade, com maior utilização da capacidade instalada e ampliação das unidades usadas. O diretor executivo de processos industriais e produtos, William França, disse que a companhia está definindo o plano para atingir essa meta de autossuficiência em diesel até 2031.
Petrobras ampliou utilização da capacidade instalada total. O fator de utilização das refinarias no país subiu de 89%, em dezembro, para 97%, no fim de março, recorde da companhia. A presidente da companhia disse que a guerra no Oriente Médio, que afetou o fornecimento de petróleo e provocou a alta do preço do barril, levou a companhia a buscar metas mais ambiciosas para atender a demanda local.
Produção de gasolina também será ampliada. Segundo a presidente da Petrobras, "a reboque do diesel vem a gasolina". Ela disse que a companhia está se preparando para atender também toda a demanda nacional de gasolina. O Brasil importa cerca de 10% desse combustível, mas as compras do exterior aumentaram neste ano. Em março, os desembarques cresceram 194%, a 335,6 milhões de litros.
Produção comercial cresceu 16% na comparação anual, para 2,8 milhões de barris de óleo equivalente por dia. No mesmo período de 2025, o volume era de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d).
Exportações de petróleo avançaram 61,2% e chegaram a 888 mil barris por dia em um ano. As vendas externas de óleo combustível também subiram, com alta de 15,4%, para 187 mil barris por dia no mesmo período. A China foi o principal destino das vendas.
Pré-sal puxou o aumento da produção, com alta de 17,8% no trimestre. A produção do pós-sal profundo e ultraprofundo cresceu 10,4%, segundo a companhia.
Petrobras colocou dez novos poços produtores em operação entre janeiro e março. Sete entraram em atividade na Bacia de Campos e três na Bacia de Santos.
Plano de Negócios da Petrobras prevê investimento de US$ 109 bilhões nos próximos cinco anos. Do total, US$ 91 bilhões (R$ 486,8 bilhões) são previstos para projetos da carteira em implantação e US$ 18 bilhões (R$ 96,3 bilhões) na carteira em avaliação, composta por oportunidades com menor grau de maturidade. O total é 1,8% menor na comparação com o plano aprovado para o período entre 2025 e 2029.
As vendas no mercado interno cresceram 2,9% no primeiro trimestre de 2026. O querosene de aviação liderou a alta, seguido pela gasolina e pelo diesel.
Produção de derivados cresceu 6,4% no trimestre. Segundo a estatal, o avanço acompanhou a alta das vendas no mercado doméstico.
Dividendos extraordinários
Distribuição de dividendos extraordinários é quase descartada por direção da empresa. O diretor-executivo Financeiro e de Relacionamento com Investidores, Fernando Melgarejo, disse na teleconferência que a possibilidade de pagar dividendos extraordinários neste ano existe, mas "é muito baixa aqui na nossa visão", afirmou. Segundo ele, a volatilidade do preço do petróleo reduz a previsibilidade sobre o comportamento do caixa, o que diminui espaço para distribuição extra de lucros aos acionistas.
Para primeiro trimestre, conselho aprovou R$ 9 bilhões em distribuição de lucros. Valor se refere a dividendos e juros sobre capital próprio que serão distribuídos entre acionistas privados e públicos. O valor corresponde a a R$ 0,70097272 por ação. Segundo comunidado da empresa, pagamento é "antecipação da remuneração relativa ao exercício de 2026, declarada com base no balanço de 31 de março de 2026".
Para detentores de ações de emissão da Petrobras negociadas na B3, a data base será em 1º de junho de 2026. A primeira parcela, no valor de R$ 0,35048636 por ação ordinária e preferencial em circulação, será paga em 20 de agosto de 2026, integralmente sob a forma de juros sobre capital próprio. A segunda parcela, no valor de R$ 0, 35048636 por ação ordinária e preferencial em circulação, será paga em 21 de setembro de 2026, integralmente sob a forma de juros sobre capital próprio.
Balanço trimestral
Petrobras lucrou R$ 32,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026. O ganho foi 7,2% menor que o apurado no mesmo período do ano passado (R$ 35,2 bilhões). Analistas esperavam ganhos em torno de R$ 29 bilhões.
Resultado vem em um período marcado pela alta do petróleo em razão do conflito no Oriente Médio e pelo impacto da valorização do real. A estatal também anunciou a distribuição de R$ 9,03 bilhões em dividendos, segundo balanço trimestral divulgado na noite de hoje.
Resultado financeiro ajudou a sustentar o desempenho do trimestre. A Petrobras informou resultado positivo de R$ 7,86 bilhões, beneficiado pela valorização do real frente ao dólar no fim do período, com efeito sobre dívidas entre a empresa e subsidiárias no exterior.
Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado foi de R$ 59,6 bilhões no trimestre. O resultado ficou 2,4% abaixo do registrado no primeiro trimestre do ano passado e 1% menor em relação ao quarto trimestre de 2025.
Já o resultado financeiro da estatal foi de R$ 1,75 bilhão. Houve alta de 1,2% em relação ao primeiro trimestre de 2025 e queda de 24,9% na comparação com o último trimestre do ano passado.
Preço médio do petróleo ficou acima do registrado um ano antes. A cotação passou de US$ 75,66 no primeiro trimestre de 2025 para US$ 80,61 no primeiro trimestre deste ano, segundo dados citados no balanço.
Por outro lado, a valorização do real pesou sobre o resultado, principalmente nas receitas de exportação. A alta da moeda brasileira reduziu os ganhos da companhia com vendas externas de petróleo.
Texto foi aprovado na Câmara e agurda votação no Senado
Por Paula Laboissière
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante cerimônia de lançamento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado e de anúncio de medidas voltadas à segurança pública.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira (12) que o governo criará o Ministério da Segurança Pública assim que o Senado Federal aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 18/25, conhecida como PEC da Segurança Pública, já aprovada pelo plenário da Câmara dos Deputados.
“Sempre recusei aprovar o Ministério da Segurança Pública enquanto a gente não tivesse definido qual seria o papel do governo federal na segurança pública”, completou.
Durante o lançamento do programa Brasil Contra o Crime Organizado, Lula lembrou que, na Constituição de 1988, “quase toda a responsabilidade” no que diz respeito à segurança pública foi repassada aos governos estaduais. “A gente estava, naquela época, com muita necessidade de nos livrar, no governo federal, porque era sempre um general de quatro estrelas que tomava conta da segurança pública”.
“Agora, estamos sentindo a necessidade de o que o governo federal volte a participar ativamente, mas com critérios e com determinação. A gente não quer ocupar o espaço dos governadores, nem o espaço da polícia estadual. O dado concreto é que, se a gente não trabalhar junto, a gente não consegue vencer. E o crime organizado se aproveita da nossa divisão.”
Entenda
Preparada pelo governo federal após consulta aos governadores, a PEC da Segurança Pública, entregue em 2025 pelo então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, busca desburocratizar e dar maior eficiência ao trabalho de autoridades no combate a organizações criminosas, inclusive por meio da aproximação de entes federativos com o governo federal.
Um dos pilares da proposta é o de dar status constitucional ao Sistema Único de Segurança Pública, criado em 2018 por lei ordinária. A fim de desburocratizar procedimentos que, no formato atual, dificultam a ação das autoridades, está prevista uma maior integração entre União e entes federados para elaborar e executar as políticas voltadas à segurança pública.
Para tanto, prevê a padronização de protocolos, informações e dados estatísticos, em um contexto em que, com 27 unidades federativas, acaba-se tendo 27 certidões de antecedentes criminais distintas, 27 possibilidades de boletins de ocorrências e 27 formatos de mandados de prisão.