Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues
Há algo de profundamente intrigante e até contraditório na sucessão estadual de 2026 no Tocantins. Nunca, em um cenário recente, um grupo político reuniu tantos ativos simultâneos: máquina administrativa, apoio institucional robusto, maioria dos prefeitos dos 139 municípios, base consolidada na Assembleia Legislativa, articulação no Congresso Nacional e, sobretudo, o respaldo direto de um governador com popularidade. Ainda assim, o desempenho da pré-candidatura governista não corresponde a esse arsenal.

A pré-candidata ao governo, senadora Professora Dorinha Seabra, carrega um patrimônio político invejável. Soma-se a isso o apoio explícito do governador Wanderlei Barbosa, o engajamento de lideranças municipais, especialmente nos maiores colégios eleitorais, além da musculatura política do senador Eduardo Gomes, hoje uma das figuras mais influentes da República e em pleno movimento de reeleição. No papel, trata-se de uma engrenagem quase imbatível.
Mas a política real não se sustenta apenas em estruturas. E é aí que mora o problema.
PRÉ-CAMPANHA SEM RITMO E SEM DIREÇÃO
O Observatório Político de O Paralelo 13 vem, há semanas, identificando um descompasso evidente entre potencial e execução. A pré-campanha governista, até aqui, não conseguiu transformar apoio em presença, nem estrutura em mobilização. Falta ritmo, falta narrativa, falta direção. O que se vê é uma candidatura que, mesmo cercada por aliados, parece isolada dentro de si mesma.
Nos últimos dias, não houve avanço perceptível no território político. Nenhum movimento capaz de gerar impacto, engajamento ou crescimento consistente junto ao eleitorado. A sensação é de estagnação, perigosa, sobretudo quando o tempo político corre mais rápido do que o calendário oficial.
OPOSIÇÃO OCUPA O VÁCUO

Enquanto isso, o principal adversário, deputado Vicentinho Júnior, avança. Ocupa espaços, amplia presença e se consolida como “a bola da vez” em diferentes camadas do eleitorado tocantinense. Não necessariamente por superioridade estrutural ou programática, mas pelo vácuo deixado por quem deveria liderar o processo com folga.
Política não tolera vazio. E alguém sempre ocupa.
FALTA COMANDO, SOBRA CONFIANÇA
A pré-campanha de Dorinha precisa, com urgência, de comando e planejamento. Não há sinais claros de uma coordenação estratégica capaz de integrar discurso, agenda e mobilização. O excesso de confiança, a sensação de “já ganhou” pode ser fatal antes mesmo do início oficial da campanha.
É preciso sair da bolha.
Nenhuma outra pré-candidatura ao governo dispõe, neste momento, de uma infraestrutura política tão ampla quanto a governista. Mas estrutura sem ativação é apenas potencial desperdiçado. E, na política, potencial não se converte automaticamente em voto.
A SENADORA “DJ” E O ERRO DA IMAGEM
Há ainda um ruído que precisa ser corrigido com urgência. A tentativa de mudar a imagem da senadora Professora Dorinha acaba sendo um erro de comunicação. Um caso recente, por exemplo, em que tentaram transformar a senadora e pré-candidata em uma professora de DJ, durante um evento com jovens universitários, ilustra bem esse desvio. Ao invés de fortalecer sua trajetória como uma congressista de peso, respeitada no cenário nacional, esse tipo de ação desfigura sua identidade política.
O problema é que estão tentando construir uma personagem que simplesmente não existe. E o eleitor percebe. Não se trata de aproximar, mas de artificializar. Ao substituir densidade política por performance, corre-se o risco de esvaziar aquilo que deveria ser o maior ativo da candidatura: sua credibilidade.
O eleitor tocantinense não quer personagem, quer consistência. Quer propostas claras, ancoradas nos eixos do desenvolvimento do Estado, e quer ouvir o que está em jogo para os próximos quatro anos. Este não é o momento de revisitar currículo ou apostar em construção artificial de imagem, como tem sido feito e acompanhado. É hora de apresentar futuro.
A população espera dos postulantes ao governo seriedade, respeito e compromisso real com o Tocantins. Qualquer desvio disso é ruído e, em campanha, ruído cobra seu preço.
O PRINCIPAL ADVERSÁRIO É INTERNO

O principal adversário da candidatura de Dorinha, hoje, não é externo. É interno. É a inércia. A reação ainda é possível — e depende de um movimento claro: o Palácio precisa assumir o comando.
A popularidade e o patrimônio político da gestão Wanderlei Barbosa precisam ser, de fato, incorporados à pré-campanha. Não de forma simbólica ou protocolar, mas concreta, cotidiana, visível. A transferência de capital político não acontece por gravidade; exige ação coordenada, presença ativa e alinhamento estratégico.
Ou o grupo governista constrói um roteiro profissional, com unidade e direção, ou corre o risco de assistir à própria vantagem se dissipar antes da largada oficial. Se houver união real, ativação plena da base e entrada decisiva do governador e seu núcleo político, ainda há competitividade — e muita.
Se não houver, o sangramento será inevitável.
E, na política, quem sangra antes da campanha dificilmente chega.