MUDANÇA DE PARTIDO, “RASTEIRA BAIANA” E AS DUAS CANDIDATURAS PALACIANAS

Posted On Segunda, 02 Março 2026 03:50
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Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues

 

 

Os próximos trinta dias prometem ser os mais intensos da pré-campanha ao Palácio Araguaia. Até 4 de abril, prazo final para filiação partidária de quem deseja disputar cargo eletivo e data-limite da chamada janela partidária, o tabuleiro político do Tocantins viverá um período de tensão máxima.

 

Mudança de partido, articulações de bastidores, movimentos estratégicos e duas pré-candidaturas governistas disputando o mesmo espaço de poder. O ambiente é de instabilidade política sem precedentes.

 

A CONVULSÃO POLÍTICA NO TOCANTINS

 

 

A base governista encontra-se dividida em duas pré-candidaturas ao governo: o presidente da Assembleia Legislativa e pré-candidato a governador Amélio Cayres e a senadora Professora Dorinha Seabra.

 

Do outro lado, as oposições também não caminham unificadas. O deputado federal Vicentinho Júnior consolida seu nome como pré-candidato ao governo, enquanto o ex-governador interino Laurez Moreira mantém sua pré-candidatura ativa, buscando viabilidade política e estrutura partidária.

 

No centro desse furacão está o governador Wanderlei Barbosa, que mantém relação de amizade e gratidão com Amélio Cayres, ao mesmo tempo em que tem compromisso político declarado com a candidatura de Professora Dorinha. Sem querer usar a “grilhotina” para cortar uma das duas pré-candidaturas dentro da base palaciana, o governador vive uma sinuca de bico política.

 

Essa posição tem provocado tensão, desconfianças e distanciamentos dentro da própria base.

 

CARNAVAL ESTRATÉGICO: AGENDAS QUE FALAM

 

 

Durante o Carnaval, Wanderlei optou por se recolher. Já Professora Dorinha, acompanhada do senador Eduardo Gomes (candidato à reeleição) e do deputado federal Carlos Gaguim (pré-candidato ao Senado), percorreu cidades estratégicas como Porto Nacional, Gurupi, Arraias, Taguatinga e Dianópolis.

 

Enquanto isso, o pré-candidato a governador e presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, realizou giro pela região Norte, reuniu-se com veículos de comunicação em Araguaína e posteriormente esteve com o governador, com quem cumpriu agenda oficial conjunta.

 

Os gestos são políticos. E dizem muito.

 

ENTREGAS E POSICIONAMENTO

 

 

Após o Carnaval, o governador reuniu sua base no Palácio Araguaia para entrega de maquinários oriundos de emendas impositivas dos senadores Eduardo Gomes e Professora Dorinha. O evento contou com a presença de Amélio Cayres, Carlos Gaguim, deputados federais e estaduais e mais de cem prefeitos.

 

Na sequência, Dorinha e Eduardo Gomes seguiram para Brasília e depois ao exterior, representando o Senado Federal em missão institucional.

 

Em Gurupi, Wanderlei elogiou publicamente a prefeita Josi Nunes, classificando sua gestão como de excelência. Também voltou a afirmar que não deixará o cargo para disputar eleições: “Vou ficar até o último dia do meu mandato”.

 

No Sudeste do Estado, o governador Wanderlei Barbosa anunciou a retomada e reconstrução de rodovias estratégicas e marcou posição ao classificar como “apagão de três meses” o período em que esteve afastado do cargo. Sem poupar críticas à gestão interina de Laurez Moreira, afirmou que faltou manutenção e que máquinas teriam sido retiradas de frentes de trabalho, prometendo agora uma força-tarefa a partir de abril para recuperar a malha viária até a divisa com a Bahia.

 

A agenda também teve forte componente político. Wanderlei aproveitou o momento para reforçar alianças e projetar lideranças regionais, garantindo que o governo dará “resposta positiva” à população do Sudeste, área considerada estratégica no mapa eleitoral de 2026.

 

Em Dianópolis, o governador fez questão de enaltecer o prefeito José Salomão, que deve renunciar para disputar vaga na Câmara Federal, reconhecendo sua parceria administrativa e sinalizando apoio ao novo passo político do aliado. Ao lado do presidente da Assembleia, Amélio Cayres, a mensagem foi clara: obra pública e articulação caminham juntas no atual momento.

 

No giro pelo Sudeste ao lado do governador Wanderlei Barbosa, o presidente da Assembleia Legislativa e pré-candidato ao Governo, Amélio Cayres, assumiu compromisso público com a ampliação de leitos clínicos e de UTI nos hospitais regionais de Arraias e Dianópolis. A defesa da descentralização da alta complexidade, para evitar que pacientes percorram centenas de quilômetros em busca de atendimento, foi feita diante do próprio governador, que acompanhava a agenda, dando peso institucional à proposta. Ao vincular a pauta da saúde à sua pré-campanha, Amélio sinaliza que pretende transformar a estrutura hospitalar do interior em eixo estratégico do seu discurso no Sudeste.

 

OS MÉRITOS DE WANDERLEI

 

 

Independentemente de posicionamento político, é inegável que Wanderlei Barbosa mantém agenda ativa de obras e ações administrativas. Mesmo tendo sido afastado temporariamente por decisão judicial, retornou ao cargo e, até o momento, nenhuma investigação apresentou prova direta que o comprometa pessoalmente.

 

Sua postura simples, linguagem acessível e presença constante no interior sustentam aprovação popular consistente. E é um erro estratégico subestimar sua capacidade de transferência de votos.

 

DORINHA X AMÉLIO: DUAS FORÇAS, UM CENTRO DE DECISÃO

 

 

Professora Dorinha tem densidade nacional, trânsito em Brasília e forte articulação municipal. Amélio Cayres tem controle institucional da Assembleia Legislativa, capilaridade regional e presença consolidada na base. Ambos têm qualidades e viabilidade e aguardam o tempo político amadurecer. O governador insiste que há tempo até as convenções. Pressioná-lo agora pode significar antecipar um conflito desnecessário.

 

JANAD: ESTRATÉGIA E REPOSICIONAMENTO

 

 

A deputada Janad Valcari vai trocar o PL pelo PP em um movimento estratégico. Com o partido sob comando de seu esposo, o empresário Ordiley, passa a influenciar diretamente o fundo eleitoral da federação União Brasil/PP no Estado.

 

Janad mantém apoio à pré-candidatura de Dorinha ao governo e às candidaturas de Eduardo Gomes e Carlos Gaguim ao Senado. Movimento calculado, não improvisado.

 

EDUARDO SIQUEIRA E O G-5

 

 

O prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos, foi o primeiro a declarar apoio público à candidatura da senadora Professora Dorinha Seabra ao Governo do Estado. Mais do que um gesto simbólico, o movimento foi estratégico.

 

Filiado ao Podemos, partido pelo qual se elegeu prefeito do maior colégio eleitoral do Tocantins Eduardo recebeu carta branca da direção nacional da legenda para conduzir a montagem das nominatas no Estado. Durante recente visita a Palmas, a presidente nacional da sigla delegou ao prefeito a responsabilidade de liderar a construção das chapas proporcionais e também a prerrogativa de encaminhar as decisões do partido na majoritária.

 

Na prática, isso significa poder para fechar o apoio do Podemos à disputa pelo Governo e às duas vagas ao Senado. Eduardo já confirmou alinhamento à pré-candidatura de Professora Dorinha ao Palácio Araguaia e também declarou apoio à reeleição do vice-presidente do Senado, Eduardo Gomes, para uma das vagas.

 

A segunda vaga ao Senado deverá ser anunciada em breve.

 

Paralelamente, o prefeito trabalha intensamente na montagem das duas nominatas do Podemos para federal e estadual. O foco imediato é garantir a reeleição do deputado federal Tiago Dimas e estruturar uma chapa capaz de eleger entre dois e três novos deputados federais, além de pelo menos cinco deputados estaduais.

 

A meta é ambiciosa e tem prazo: até 4 de abril, Eduardo pretende estar com as duas nominatas consolidadas.

 

No tabuleiro político, o prefeito de Palmas age com uma leitura clara: quem constrói nominata forte participa diretamente da definição da chapa majoritária. Ao liderar o chamado G-5 — grupo que reúne prefeitos dos cinco maiores colégios eleitorais do Tocantins — Eduardo se posiciona não apenas como aliado, mas como peça estratégica na engrenagem da sucessão estadual.

 

VICENTINHO JÚNIOR: CRESCIMENTO COM PRAZO

 

 

O deputado federal Vicentinho Júnior segue ampliando sua presença no cenário estadual. Seu nome cresce entre o eleitorado jovem e consolida pontes importantes com o agronegócio, segmento estratégico na economia tocantinense. A pré-candidatura ganha musculatura e visibilidade. Mas política majoritária exige mais do que exposição e boa performance individual. Vicentinho sabe que precisa estruturar sua chapa majoritária e, sobretudo, organizar nominatas proporcionais competitivas até o prazo estratégico de 4 de abril. Sem engenharia política sólida, crescimento isolado não se sustenta.

 

Neste fim de semana, o pré-candidato fez um giro pela região Norte do Estado, especialmente no Bico do Papagaio, reforçando bases e ampliando articulações. Ao longo da semana, também se reuniu com diversas lideranças políticas, muitas delas religiosas, além de pré-candidatos e postulantes às chapas proporcionais — federal e estadual. O foco é fechar nominatas competitivas, com densidade eleitoral e capilaridade regional. No xadrez de 2026, quem não montar time forte agora corre o risco de assistir ao jogo da arquibancada.

 

LAUREZ MOREIRA: EXPERIÊNCIA QUE PRECISA VIRAR AÇÃO

 

 

Laurez Moreira carrega recall eleitoral e experiência administrativa. Mas precisa apresentar, com urgência, vice definido, nomes ao Senado e nominatas estruturadas.

 

Vídeos, agendas pontuais e discursos não substituem organização partidária. O prazo é objetivo. E política não espera.

 

INDECISOS PODEM DECIDIR A ELEIÇÃO MAJORITÁRIA

 

 

Faltando poucos meses para o início oficial da campanha, um dado chama atenção no cenário estadual: o alto índice de eleitores indecisos. De acordo com levantamento de consumo ao qual o Observatório Político do Paralelo 13 teve acesso, entre 52% e 60% dos entrevistados afirmam ainda não ter definido em quem votar para governador ou governadora. O dado revela não apenas incerteza, mas também desinteresse momentâneo pelo debate político — muitos sequer sabem, com clareza, quem são os pré-candidatos colocados.

 

O perfil desse eleitorado também merece leitura estratégica. A maior parte dos indecisos é formada por beneficiários de programas sociais do governo federal, além de profissionais liberais e prestadores de serviço sem carteira assinada, um público sensível a pautas econômicas, emprego, renda e políticas públicas diretas. Trata-se de um contingente que tende a se posicionar mais próximo do período eleitoral, quando a disputa ganha intensidade nas ruas e nas redes.

 

Diante desse quadro, o Observatório Político do Paralelo 13 avalia que esse bloco pode, sim, alterar completamente o resultado a partir de meados de julho, quando a campanha começar a ganhar tração. Se a maioria desses indecisos caminhar de forma homogênea no chamado “efeito manada” o cenário pode se resolver já no primeiro turno. Caso contrário, a dispersão tende a empurrar a eleição para uma segunda etapa. No atual tabuleiro, mais do que os nomes postos, é o silêncio dos indecisos que sustenta a imprevisibilidade de 2026.

 

MÁSCARAS DE SOBREVIVÊNCIA POLÍTICA

 

 

Nos próximos 30 dias que antecedem 4 de abril, prazo final para quem deseja disputar mandato eletivo se filiar a um partido político, o cenário tende a ganhar contornos ainda mais tensos. Nos bastidores, fala-se em cerca de nove deputados estaduais com os quais o governador Wanderlei Barbosa não pretende manter relação política. São parlamentares que, durante o período em que o governador foi afastado por decisão do STJ e o vice Laurez Moreira assumiu interinamente, integraram a base do governo provisório e se posicionaram favoravelmente à abertura de processo de impeachment contra Wanderlei à época.

 

Agora, com a janela partidária se aproximando, esses deputados terão a possibilidade de mudar de legenda sem risco de perda de mandato movimento que pode redefinir forças dentro da Assembleia e reconfigurar palanques para 2026. O detalhe que apimenta ainda mais o enredo: alguns deles estão filiados ao Republicanos, partido presidido no Estado pelo próprio governador.

 

O relógio corre. As cartas estão sendo embaralhadas. E, ao que tudo indica, a cobra vai fumar.

 

 

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