Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues
A campanha eleitoral ainda nem terminou, mas nos bastidores já começam as discussões sobre quem deverá responder pelo desempenho da chapa majoritária formada por Laurez Moreira, Paulo Mourão e seus aliados. E, nesse debate, nos bastidores da política, surgem tentativas de transferir para a ex-senadora Kátia Abreu parte dessa responsabilidade.
É preciso separar as coisas.
Kátia recebeu uma missão definida em 2026: coordenar no Tocantins a campanha pela reeleição do presidente Lula. A confirmação ocorreu em junho, no mesmo período em que o PT formalizou apoio à candidatura de Laurez Moreira ao Governo e confirmou Paulo Mourão para a disputa ao Senado.
Kátia não era coordenadora da candidatura de Laurez ao Governo, nem da campanha de Paulo Mourão ao Senado, muito menos das candidaturas proporcionais. E foi na candidatura presidencial que concentrou seu trabalho.
KÁTIA COLOCOU A CAMPANHA DE LULA NA RUA

Ao longo da campanha, Kátia organizou encontros, reuniões, caminhadas, carreatas e agendas pelo interior. Também buscou aproximar da candidatura presidencial diferentes segmentos da sociedade e grupos políticos e sociais que poderiam ampliar a campanha de Lula para além das estruturas partidárias tradicionais.
Em Palmas, a coordenação buscou diálogo com movimentos sociais, representantes da juventude e da cultura, lideranças políticas e diferentes setores da sociedade.
No interior, percorreu diferentes regiões. No Bico do Papagaio, a Caravana Tocantins com Lula passou por 13 municípios numa estratégia de interiorização da campanha presidencial.
E foi justamente no Bico que ficou evidente uma característica importante dessa campanha.
NO MESMO BICO, DUAS AGENDAS

Em agosto, o grupo coordenado por Kátia e integrantes da chapa estadual estiveram no Bico do Papagaio defendendo a reeleição de Lula, mas as movimentações não funcionaram como uma única agenda. Enquanto Kátia conduzia a Caravana Tocantins com Lula, a chapa majoritária do PT no Tocantins participava de outra agenda no mesmo município.
Essa imagem ajuda a resumir parte da campanha. Todos defendiam Lula para presidente, mas isso não significou uma operação eleitoral completamente integrada no Tocantins.
Laurez precisava construir sua candidatura ao Governo. Paulo Mourão precisava conquistar uma cadeira no Senado. Os candidatos proporcionais buscavam seus próprios mandatos. Kátia tinha como missão ampliar a candidatura de Lula no Estado. Se faltou integração entre esses grupos, essa discussão é legítima. O que não parece razoável é transformar essa falta de integração em responsabilidade exclusiva de uma pessoa.
IRAJÁ TAMBÉM ESTAVA NESSA EQUAÇÃO

Também não se podem ignorar as divergências surgidas durante a construção política do campo que apoiava Lula no Tocantins.
A candidatura à reeleição do senador Irajá Abreu, filho de Kátia, esteve no centro das discussões envolvendo a formação da chapa e o espaço ocupado pelo PT na disputa pelo Senado.
Por isso, qualquer avaliação posterior precisa olhar para toda a engenharia política construída durante a eleição, e não escolher apenas uma peça para explicar o resultado.
CADA CAMPANHA RESPONDE PELO QUE FEZ

As urnas sequer foram abertas.
Ainda não sabemos quantos votos Lula terá no Tocantins, qual será o desempenho de Laurez, quantos votos Paulo Mourão receberá ou como sairão das urnas as candidaturas proporcionais.
Mas uma coisa pode ser estabelecida desde já: cada grupo político deverá ser avaliado pelas responsabilidades que assumiu e pela campanha que efetivamente conduziu.
Laurez Moreira encabeçou a candidatura ao Governo. Paulo Mourão conduziu sua disputa pelo Senado. Os partidos da aliança organizaram suas nominatas e suas campanhas proporcionais.
Portanto, o sucesso ou o fracasso eleitoral da chapa estadual deverá ser analisado principalmente a partir das decisões, estratégias, alianças, acertos e erros de Laurez, Paulo Mourão, dos partidos e das lideranças que conduziram esse projeto.
Da mesma maneira, Kátia Abreu deverá ser avaliada pela missão que recebeu: coordenar a campanha presidencial no Tocantins.
Se Lula alcançar um resultado expressivo no Estado, haverá elementos para avaliar positivamente o trabalho realizado por Kátia, seus aliados e todos os grupos envolvidos nessa mobilização. Se o desempenho presidencial ficar abaixo das expectativas, a estratégia conduzida por esse núcleo também deverá ser examinada.
É simples.
Cada campanha precisa responder pelo trabalho que realizou.
Tentar colocar sobre Kátia Abreu, isoladamente, a responsabilidade pelo desempenho de Laurez, Paulo Mourão ou das candidaturas proporcionais seria uma leitura leviana dos fatos políticos. Mais do que leviana, seria uma tentativa de reescrever as responsabilidades assumidas por cada grupo durante a campanha.
Atribuir a Kátia o resultado da chapa estadual, sem considerar que sua missão era coordenar a campanha de Lula, seria uma análise superficial, conveniente e politicamente desonesta.
Da mesma forma, não seria correto atribuir exclusivamente a Laurez ou Paulo Mourão o desempenho eleitoral de Lula no Tocantins.
DEPOIS DAS URNAS, CADA UM FAÇA SUA CONTA

Depois de 4 de outubro haverá números para colocar sobre a mesa.
Será possível comparar a votação de Lula com a de Laurez, Paulo Mourão e das candidaturas proporcionais; observar município por município; identificar onde cada estratégia funcionou e onde cada grupo perdeu ou conquistou espaço.
Aí, sim, será hora de fazer as contas.
E haverá uma regra básica para qualquer análise minimamente justa: não se pode cobrar de alguém o resultado de uma campanha que essa pessoa não coordenou.
Kátia responderá politicamente pelo trabalho desenvolvido em torno de Lula.
Laurez e Paulo Mourão responderão pela campanha estadual que construíram ao lado de seus partidos e aliados.
Se faltou unidade entre esses dois núcleos, a responsabilidade por essa falta de unidade também deverá ser discutida coletivamente.
Porque política é feita de escolhas.
E responsabilidade também.