Por Edson Rodrigues
O segundo turno no Tocantins começa a produzir uma situação política que merece ser observada com lupa. De um lado, a candidata ao Governo Professora Dorinha Seabra, que nesta segunda-feira esteve ao lado do governador Wanderlei Barbosa, do senador Eduardo Gomes e de outras lideranças da sua aliança em uma conversa por vídeo com Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República. Na conversa, Flávio agradeceu a votação recebida no Tocantins e confirmou o alinhamento com a candidatura de Dorinha. Eduardo Gomes fez questão de reforçar um pedido: a presença de Flávio no Estado durante o segundo turno para participar da campanha e fortalecer o palanque da candidata.
Do outro lado, poucas horas depois, o candidato Vicentinho Júnior também deixou claro que não pretende abrir mão da identidade política que construiu ao longo dos últimos anos. Questionado pela imprensa sobre o apoio a Flávio Bolsonaro, Vicentinho afirmou que votou nele no primeiro turno e que repetirá o voto no segundo. Mais do que isso, fez questão de lembrar sua trajetória de apoio ao bolsonarismo, citando sua posição em 2018 e o apoio à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.
Está formado, portanto, um dos fatos mais curiosos desta eleição: Dorinha fará palanque para Flávio Bolsonaro. Vicentinho também fará palanque para Flávio Bolsonaro. E é exatamente aí que começa o novo capítulo da disputa pelo Palácio Araguaia.
O MESMO PRESIDENTE, DOIS PROJETOS PARA O TOCANTINS

A situação não deixa de ser politicamente singular. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno no Tocantins à frente de Lula, com 469.321 votos, 50,44% dos votos válidos, contra 404.009 votos, 43,42%, obtidos pelo petista. Uma diferença de 65.312 votos. Esse resultado transformou a votação presidencial em um ativo político que nenhum dos dois candidatos ao Governo pode ignorar.
E os dois sabem disso.
Dorinha tem agora a possibilidade de aproximar seu palanque estadual do candidato presidencial que venceu no Tocantins. A articulação feita nesta segunda-feira mostra que o grupo governista pretende explorar essa conexão, inclusive com a possibilidade de uma visita de Flávio ao Estado durante a campanha.
Vicentinho, por sua vez, tenta deixar claro que não chegou agora ao campo bolsonarista. Sua argumentação é a de quem quer apresentar o apoio a Flávio como continuidade de uma trajetória política, e não como uma movimentação circunstancial provocada pelo segundo turno.
É uma diferença de narrativa importante. Dorinha apresenta o apoio como uma composição política para a nova etapa eleitoral. Vicentinho apresenta o apoio como coerência com sua história. E o eleitor será chamado a avaliar essas duas narrativas.
FLÁVIO AGORA TEM DOIS PALANQUES NO TOCANTINS

A questão que se coloca é simples, mas politicamente complexa: como funcionará uma campanha presidencial que terá dois palanques na mesma eleição estadual? Flávio Bolsonaro poderá ter espaço tanto ao lado de Dorinha quanto ao lado de Vicentinho. Poderá ser recebido por grupos políticos diferentes, poderá aparecer em agendas diferentes, poderá ser utilizado como símbolo de identificação política pelas duas campanhas.
E isso cria uma situação pouco comum.
No segundo turno presidencial, o eleitor tocantinense escolherá entre Flávio e Lula. No segundo turno estadual, escolherá entre Dorinha e Vicentinho. Mas não existe uma combinação eleitoral obrigatória.
O eleitor pode votar em Flávio para presidente e em Dorinha para governadora. Pode votar em Flávio e em Vicentinho. Pode escolher Lula e Dorinha. Pode escolher Lula e Vicentinho. A urna permite todas essas combinações.
Por isso, qualquer tentativa de transformar o apoio presidencial em transferência automática de votos seria simplificar demais o comportamento do eleitor.
GOMES NO CENTRO DA ARTICULAÇÃO

A movimentação desta segunda-feira também recoloca Eduardo Gomes no centro das articulações. Reeleito senador pelo Tocantins e uma das principais lideranças do PL no Estado, Gomes participou diretamente da conversa com Flávio e fez questão de solicitar a presença do presidenciável na campanha de Dorinha. A articulação reforça a proximidade entre o senador, o governador Wanderlei Barbosa e a candidatura da senadora ao Governo.
É uma demonstração de que o segundo turno não será apenas uma disputa entre duas candidaturas. Será também uma disputa pela capacidade de cada grupo de montar um palanque politicamente forte, ampliar alianças e transformar seus apoios nacionais e estaduais em presença efetiva nos municípios.
E, nesse ponto, a presença de Flávio poderá se tornar um dos elementos mais disputados da campanha.
VICENTINHO NÃO QUER ENTREGAR O CAMPO BOLSONARISTA

A reação de Vicentinho também precisa ser compreendida dentro desse novo desenho. Ao afirmar publicamente que votou em Flávio no primeiro turno e que continuará votando nele, o candidato sinaliza que pretende disputar também o eleitorado identificado com a direita e com o bolsonarismo.
Mais do que isso, ao lembrar sua posição em 2018 e em 2022, Vicentinho procura estabelecer uma diferença de trajetória. A mensagem é clara: não se trata de uma adesão de ocasião, mas de uma posição que ele afirma carregar há anos.
A campanha de Dorinha, naturalmente, tem outra narrativa. Ela passa a contar com o apoio explícito do grupo liderado por Eduardo Gomes e com a articulação para aproximar Flávio de sua candidatura ao Governo. É justamente nesse cruzamento que o segundo turno tocantinense começa a ganhar uma característica própria.
O ELEITOR DE DIREITA SERÁ DISPUTADO PELOS DOIS

A disputa pelo eleitorado de direita pode se transformar em uma das principais frentes desta segunda etapa. Não porque todo eleitor que votou em Flávio escolherá automaticamente um dos dois candidatos ao Governo. Mas porque a votação presidencial mostrou que existe no Tocantins um contingente eleitoral expressivo que se identificou com o candidato do PL. Esse eleitor agora será cortejado pelas duas campanhas.
A ELEIÇÃO ESTADUAL NÃO SERÁ RESOLVIDA EM BRASÍLIA
Mas existe uma ressalva fundamental. A eleição é no Tocantins. E quem decide é o eleitor tocantinense. O apoio de uma liderança nacional pode aumentar a visibilidade de uma candidatura. Pode produzir mobilização. Pode gerar imagens, eventos, carreatas e discursos.
Mas não substitui a campanha estadual. Dorinha continuará precisando conversar com o eleitor sobre Tocantins. Vicentinho também. As duas campanhas terão de apresentar suas propostas, defender seus projetos e enfrentar os problemas concretos do Estado.
Porque, no fim das contas, Flávio estará na disputa presidencial. Dorinha e Vicentinho estarão disputando o Palácio Araguaia. São duas eleições acontecendo simultaneamente, ainda que os palanques possam se cruzar.
ALIANÇAS
Mas, como política não é uma ciência exata, nesse processo sucessório desaguando no segundo turno no Tocantins, pode ser chegar a uma vitória seguindo outras equações, que necessariamente não vem de Brasília.
Segundo o CEO da Quaest, Felipe Nunes, o segundo turno no Tocantins pode sim, ser decidido, por quem conseguir acordos e apoios dos demais candidatos ao governo do Estado, derrotados em 4 de outubro. Os votos deles, conforme declarou o cientista político que preside esse instituto de pesquisa, serão decisivos para a vitória no próximo dia 25.