DAMARES ALVES E O DISCURSO QUE PODE TER CUSTADO CARO À CAMPANHA DE DORINHA

Posted On Quinta, 22 Outubro 2026 09:08
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Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues

 

 

A visita das senadoras Damares Alves, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Tocantins foi planejada para reforçar a candidatura da senadora Professora Dorinha Seabra ao Governo do Estado, a três dias do segundo turno. O encontro, realizado em Palmas e denominado “Todas por Ela”, reuniu lideranças e apoiadores em uma mobilização articulada pelo senador reeleito Eduardo Gomes, vice-presidente do Senado e um dos principais coordenadores políticos da campanha.

 

A presença das três representantes nacionais da direita tinha como objetivo dar visibilidade a candidatura, animar a militância e ampliar a mobilização eleitoral. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas senadoras pelo Distrito Federal, chegaram ao Estado acompanhadas de Damares Alves para fortalecer o palanque de Dorinha.

 

Mas, em política, a mensagem importa tanto quanto a presença. E o pronunciamento de Damares Alves acabou chamando atenção por um motivo que talvez não estivesse no roteiro da campanha.

 

UMA FALA FORA DO TOM

Ao afirmar que a esquerda e o Palácio do Planalto temem Dorinha no Senado, Damares apresentou aos participantes uma imagem da candidata associada ao enfrentamento político nacional. O discurso, de tom duro e polarizador, destoou da imagem pública que Professora Dorinha construiu no Tocantins ao longo de sua trajetória.

 

A senadora é conhecida no Estado por uma atuação institucional e por uma postura geralmente moderada no trato político. Sua trajetória inclui interlocução com diferentes setores e participação em articulações que ultrapassam as fronteiras de um único campo ideológico.

 

Ao tentar transformar essa relação em um símbolo de confronto ideológico, Damares pode ter provocado um efeito contrário ao desejado e em vez de ampliar a candidatura, correu o risco de afastar eleitores de esquerda que poderiam considerar votar em Dorinha pela sua capacidade de diálogo e pela expectativa de uma gestão aberta à cooperação institucional. Não é possível afirmar, sem dados eleitorais posteriores, quantos votos a declaração possa ter afastado, mas o risco político é evidente. Em uma disputa decidida por margens estreitas, apresentar a candidata como alguém temida pelo Planalto pode dificultar a conquista justamente dos votos que ela precisa buscar fora de sua base mais fiel. A pergunta que fazemos agora é: Damares ajudou a revelar uma força política de Dorinha ou acabou projetando uma imagem que pode afastar parte do eleitorado tocantinense?

 

 

QUAL DORINHA O ELEITOR DEVE CONHECER?

O pronunciamento trouxe à tona uma contradição política que merece reflexão. No Tocantins, Dorinha não se apresenta apenas como representante de uma corrente ideológica. Sua candidatura busca reunir uma ampla base de apoio, com lideranças de diferentes perfis e interlocução institucional necessária para governar.

 

Ao longo da campanha, a senadora contou com o apoio do governador Wanderlei Barbosa e do senador Eduardo Gomes. Este último tem trajetória marcada pela articulação política e pelo diálogo com diferentes setores de Brasília, características importantes para quem pretende ampliar a capacidade de negociação do Estado.

 

Também é necessário lembrar que a política tocantinense mantém relações institucionais com o governo federal em áreas estratégicas, como infraestrutura, programas sociais, investimentos e serviços públicos. Transformar essa relação em uma disputa de hostilidade permanente pode dificultar o diálogo que qualquer governador precisa manter com Brasília, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.

 

Não se trata de impedir críticas ou divergências ideológicas. Trata-se de distinguir o discurso de palanque da responsabilidade de governar.

 

EDUARDO GOMES BUSCOU REFORÇAR A CAMPANHA

 

A mobilização de Michelle Bolsonaro, Damares Alves e Bia Kicis foi uma aposta política de Eduardo Gomes para dar novo impulso à candidatura de Dorinha na reta final. A presença das três lideranças tinha potencial para mobilizar o eleitorado conservador e ampliar a repercussão da campanha.

 

Eduardo Gomes, reeleito senador com mais de 450 mil votos e atual vice-presidente do Senado, é um dos principais articuladores políticos da candidatura. Sua estratégia de reunir lideranças nacionais demonstra o esforço para ampliar a mobilização em torno de Dorinha.

 

O problema não está na presença das senadoras nem no apoio que elas decidiram oferecer. Está na possibilidade de uma mensagem excessivamente confrontadora deslocar o debate das propostas para uma disputa ideológica que não necessariamente corresponde às prioridades de todos os eleitores tocantinenses.

 

A campanha precisa avaliar se o discurso apresentado fortalece a candidatura junto ao conjunto do eleitorado ou se fala principalmente à parcela que já está convencida.

 

UM REFORÇO QUE PODE TER EFEITO CONTRÁRIO

 

A poucos dias da votação, cada movimento ganha peso. O eleitor precisa decidir não apenas com base em afinidades partidárias, mas também considerando quem demonstra melhores condições de administrar o Estado, negociar recursos e construir soluções para os municípios.

 

Se a intenção da visita era oxigenar a candidatura de Dorinha, o resultado político dependerá da mensagem que ficou para além do evento. Uma mobilização pode reunir apoiadores, gerar imagens e repercussão nas redes sociais, mas isso não significa, automaticamente, conversão de votos.

 

O risco é que o discurso de confronto nacional acabe empurrando para o campo adversário eleitores que não se identificam com a polarização. Não é possível afirmar, sem pesquisas posteriores, que isso tenha ocorrido. Mas é uma consequência que a coordenação da campanha precisa considerar.

 

Em uma eleição apertada, a diferença pode estar justamente na capacidade de conversar com quem ainda tem dúvidas, e não apenas em reafirmar convicções de quem já escolheu seu candidato.

O TOCANTINS PRECISA DE DIÁLOGO

O Estado precisa de um governo capaz de manter relações institucionais, buscar investimentos e trabalhar com diferentes forças políticas. O governador eleito terá de dialogar com prefeitos, parlamentares, empresários, trabalhadores, movimentos sociais e com o governo federal, qualquer que seja sua orientação política.

 

É legítimo que Dorinha tenha o apoio de lideranças nacionais da direita. Também é legítimo que essas lideranças defendam suas ideias e critiquem seus adversários. A questão é saber se o tom adotado contribui para ampliar a candidatura ou se restringe sua capacidade de dialogar com uma sociedade plural.

 

A campanha de Dorinha tem aliados experientes, estrutura política e nomes de alcance nacional. O desafio é fazer com que esses recursos trabalhem a favor de uma mensagem coerente com a imagem que a candidata deseja transmitir ao eleitor tocantinense.

 

A visita de Michelle Bolsonaro, Damares Alves e Bia Kicis pretendia ser um reforço decisivo. O pronunciamento de Damares, entretanto, abriu uma discussão que vai além do evento: qual projeto político Dorinha representa e que tipo de relação pretende construir com quem pensa diferente?

 

A resposta caberá à própria campanha, mas também ao eleitor, que terá a palavra final nas urnas. Em política, nem todo reforço fortalece. Às vezes, o discurso que anima a militância é justamente aquele que afasta quem ainda precisa ser convencido.

 

 

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