Como o jogo dos partidos mexe com a busca por candidato de terceira via em 2022

Posted On Segunda, 18 Outubro 2021 06:18
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Para fortalecer eventuais candidaturas em 2022, Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Rodrigo Pacheco, Simone Tebet e Henrique Mandetta precisam conquistar espaço em meio à polarização entre Bolsonaro e Lula Para fortalecer eventuais candidaturas em 2022, Ciro Gomes, João Doria, Eduardo Leite, Rodrigo Pacheco, Simone Tebet e Henrique Mandetta precisam conquistar espaço em meio à polarização entre Bolsonaro e Lula

Mesmo que não consigam chegar ao segundo turno, partidos têm a chance de ganhar poder e fortalecimento ao marcar seu território na corrida, dizem analista

 

Por Marcelo Tuvuca colaboração para a CNN

 

Desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se tornou elegível e passou a despontar como líder das pesquisas para a corrida eleitoral de 2022, antagonizando com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o termo “terceira via” se popularizou para denominar o candidato que represente uma alternativa a esses dois lados.

 

Nesse contexto, partidos e aspirantes à cadeira presidencial se movimentam para ganhar força e se estabelecerem como essa opção, em uma disputa com ares de prévias.

 

De acordo com cientistas políticos e historiadores, no entanto, o cenário pré-2022 apresenta uma versão “repaginada” desse conceito, distante de sua origem.

 

Mesmo assim, na opinião dos analistas, essa disputa é fundamental para a definição do cenário político a partir do ano que vem e tem potencial de fortalecer aqueles que saírem do pleito com bons resultados, ainda que derrotados na disputa pelos votos.

 

A origem do conceito

 

Segundo Fernando Guarnieri, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Político da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), a origem do conceito de terceira via na política remete à fase final da Guerra Fria e aos dois sistemas socioeconômicos dominantes à época: o capitalismo dos Estados Unidos e o socialismo da União Soviética.

 

A terceira via, associada a partidos de centro esquerda e sociais-democratas da Europa, surgiu como um meio termo, reunindo elementos de direita – políticas mais liberais e um estado menos centralizado, por exemplo – com bandeiras tradicionais da esquerda, como a justiça social e a igualdade de oportunidades.

 

No Brasil pré-Bolsonaro, esse mesmo termo já aparecia para classificar os candidatos que tentavam romper a polarização entre PT e PSDB nas eleições para presidente desde 1994. Mas essa polarização brasileira, diz Guarnieri, já se mostrava mais política do que ideológica, diferentemente do contexto internacional do fim da Guerra Fria. “No governo Lula, o PT acabou se movendo para o centro, onde o PSDB já ocupava”, afirma.

 

O histórico eleitoral brasileiro aponta a continuação de uma polarização que pode representar um obstáculo para qualquer candidato que tente chegar como terceira força na disputa com dois nomes predominantes na campanha eleitoral.

 

Desde 1994, o resultado do primeiro turno das eleições nunca registrou um terceiro colocado que tenha ameaçado ir ao segundo turno. O melhor desempenho foi de Marina Silva (então no PSB), em 2014, com 21% dos votos – distantes dos 41% de Dilma Rousseff (PT) e dos 33% de Aécio Neves (PSDB).

 

Até aquela eleição, o cenário foi sempre o mesmo: PT e PSDB protagonizando a disputa entre seus candidatos. Em 2018, Bolsonaro assumiu o papel de antagonista dos petistas, mas a polarização entre dois nomes permaneceu a mesma.

 

Os obstáculos que dificultam a terceira via

Mas por que é tão difícil um terceiro candidato chegar forte à eleição presidencial no Brasil?

 

O sistema político-eleitoral do país, o comportamento do eleitor e a dificuldade de se encontrar nomes conhecidos nacionalmente são algumas das explicações que os especialistas apontam.

 

“Há uma fragmentação muito grande de partidos no Brasil, e a política é multidimensional: envolve valores, costumes e políticas diversas. Se o eleitor sentir que o seu candidato preferido não tem muitas chances, ele costuma procurar um nome mais viável. É o famoso voto estratégico, ou voto útil”, diz Guarnieri.

 

Para o historiador Nelson Ferreira Marques Júnior, professor do Instituto de Educação Superior do Vale do Parnaíba (Piauí), outros fatores podem, em tese, fortalecer a concentração de votos entre Lula e Bolsonaro em um eventual primeiro turno de 2022.

 

“O Bolsonaro tem a máquina do Estado nas mãos, e o Brasil é um país com tradição de reeleger seus presidentes. Do outro lado está o PT, o maior partido de esquerda da América Latina e que mais se organizou, historicamente, para fazer coalizões políticas”, afirma. “Além disso, Lula e Bolsonaro são dois estadistas muito personalizados. Diferentemente de outros pleitos, a eleição presidencial é muito personalista”, afirma.

 

A terceira via é uma alternativa?

Apesar de concentrada em Lula e Bolsonaro, a polarização entre direita e esquerda não transforma automaticamente os outros pré-candidatos de 2022 em uma alternativa clássica de terceira via, centrista, segundo a visão dos especialistas.

 

“Se um terceiro candidato se mostrar competitivo em 2022, isso não quer dizer que ele seja uma ‘terceira via’. Ele é apenas uma alternativa a Lula e Bolsonaro, que hoje aparecem como principais”, diz Fernando Guarnieri.

 

Para Marques Júnior, “não existe uma terceira via em termos de projeto de nação”. “O projeto do Ciro Gomes e do PDT se aproxima ao do Lula, mais de centro-esquerda. No outro bloco, partidos como o DEM-PSL [em fusão para formar o União Brasil], por exemplo, apresentam ideias neoliberais, que não mudam muito em relação ao projeto do [ministro da Economia] Paulo Guedes: estado mínimo, privatização de setores estratégicos, incentivo ao empreendedorismo”, aponta o historiador.

 

“O apoio do empresariado a uma terceira via, por exemplo, não se refere a um projeto novo, autônomo, mas sim a um candidato que aproveite a agenda econômica do Paulo Guedes com um discurso mais polido”, acrescenta.

 

Vera Chaia, professora de política e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), enxerga no cenário atual uma possibilidade de projeto próximo ao de uma terceira via clássica caso o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, vença as prévias do PSDB contra João Doria. A votação, marcada para 21 de novembro, contará também com o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto na disputa.

 

“Essa seria uma alternativa social-democrata, ainda que de centro-direita, caso ela seja bem construída. O PSDB deu uma ‘endireitada’ nos últimos anos, mas poderia retomar uma posição mais de centro com o Eduardo Leite, que é bem avaliado como governador e obteve apoio, no partido, de parlamentares importantes como o [senador] Tasso Jereissati“, comenta a professora.

 

Chaia cita Doria e também Ciro Gomes como figuras polarizadoras que dificilmente emplacariam esse perfil de alternativa ao bolsonarismo e ao petismo. “O Doria não tem unanimidade nem no próprio partido, e o Ciro se porta de maneira agressiva, desagregadora”, analisa.

 

A professora enumerou outros políticos apontados como pré-candidatos, como o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS). Segundo ela, o maior obstáculo para esses potenciais candidatos é a falta de capital político de seus nomes na comparação com Lula ou Bolsonaro.

 

Os ganhos da terceira via mesmo com a derrota na eleição

 

A marcação de território da “terceira via”, no entanto, vai além de uma eventual ida ao segundo turno e da vitória na eleição: ela pode render a partidos e candidatos recursos em dinheiro, poder de barganha e força política.

 

“Esse bloco da terceira via pode não ter uma força personalizada em alguém, mas, se houver união, ele pode se sentar na mesa de negociação com o próximo presidente e ganhar ministérios, cargos e recursos. Seja Lula ou Bolsonaro, é assim que a terceira via conseguirá se fortalecer no cenário legislativo”, diz Nelson Marques Júnior.

 

Para Vera Chaia, um dos grandes exemplos desse tipo de movimento é o do PSD, do ex-ministro Gilberto Kassab, que, no momento, não tem um nome óbvio como pré-candidato – há especulações sobre uma eventual migração de Rodrigo Pacheco ao partido para se tornar essa opção.

 

“Acho que o movimento do PSD é de conseguir espaço em futuros governos. Ele não tem um programa partidário nem uma força política por si só. Seu poder está na capacidade de articulação do Kassab”, afirma Chaia, citando a negociação do partido com Geraldo Alckmin (PSDB) e Márcio França (PSB) para a disputa pelo governo de São Paulo em 2022.

 

Fernando Guarnieri lembra que essa formação de palanques estaduais fortes fará com que o PSD seja cortejado pelos eventuais candidatos à Presidência. “Essa estratégia dá força aos partidos e permite um grande poder de barganha para a formação de uma coalizão. Isso pode reverter em participação no governo e no controle de políticas importantes para o partido.”

 

Para o cientista político, o movimento que mais chama a atenção fora dos polos da eleição presidencial é a fusão entre duas legendas de direita, o DEM e o PSL. Segundo Guarnieri, o novo partido “será um filhote robusto, um partido nacional com grande força no Congresso e nas regiões”.

 

“Uma grande bancada na Câmara decide, entre outras coisas, os recursos dos fundos eleitorais e partidários. A partir do momento em que um partido se fortalece, ele também atrai novos candidatos e aumenta suas chances de aumentar ainda mais suas cadeiras no Congresso. A corrida presidencial pode até ser uma ambição, mas DEM e PSL não vão tê-la como objetivo principal”, observa.

 

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