A indústria da multa que ameaça o turismo de Araguacema

Posted On Sexta, 24 Julho 2026 11:18
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Por Wagner de Freitas

 

 

Todos os anos, milhares de turistas escolhem Araguacema para viver a temporada de praias do Rio Araguaia.

 

É um período que movimenta a economia local, gera renda para centenas de famílias e mantém vivo um dos destinos turísticos mais tradicionais do Tocantins.

Infelizmente, a atuação da Marinha do Brasil durante a temporada tem provocado um sentimento crescente de indignação entre canoeiros, comerciantes, moradores e turistas.

É evidente que a fiscalização da navegação é uma atribuição legal da Marinha. Ninguém defende a ausência de regras ou a desorganização.

 

O problema é a forma como essa fiscalização vem sendo realizada.

Grande parte dos canoeiros de Araguacema são trabalhadores simples, que passam o ano inteiro aguardando a temporada para conseguir complementar a renda da família.

 

Antes do início das praias, muitos não receberam qualquer orientação oficial sobre documentação, equipamentos obrigatórios, seguro, iluminação das embarcações ou procedimentos para regularização dos barcos documentos que, muitas vezes, precisam ser providenciados em Palmas, exigindo deslocamento, custos e burocracia incompatíveis com a realidade dessas pessoas.

 

Em vez de uma grande campanha educativa antes da temporada, o que se vê é uma operação concentrada justamente nos dias de maior movimento.

 

 

A fiscalização chega na sexta-feira, autua durante sexta, sábado e domingo e vai embora na segunda-feira. Sem posto permanente, sem estrutura de apoio, sem orientação continuada e na maioria dos casos com muita truculência na abordagem o que assusya de sobre maneira a gente simples que vive desse trabalho durante várias gerações .

Essa dinâmica inevitavelmente leva muitos moradores à seguinte pergunta: o objetivo principal é educar e prevenir acidentes ou simplesmente aplicar multas?

Essa percepção se fortalece quando turistas também passam a ser abordados de forma constante, criando um ambiente de insegurança e desconforto para quem veio apenas aproveitar as belezas do Araguaia.

 

O resultado é previsível: muitos passam a procurar outras praias onde possam navegar com tranquilidade.

Quem perde é Araguacema.

 

A cidade construiu sua história turística praticamente sozinha. Ao longo de décadas, recebeu muito mais apoio do Governo do Estado do Tocantins do que do Governo Federal para consolidar seu potencial turístico. Ainda assim, tornou-se referência nacional pelas praias, pela hospitalidade e pela tranquilidade de suas águas.

 

Não se pode ignorar também que Araguacema possui um histórico extremamente positivo quanto à segurança da navegação.

 

 

A cultura local sempre valorizou o respeito ao rio e a experiência dos canoeiros contribuiu para que a cidade mantivesse, ao longo de muitos anos, uma reputação de segurança sem registro de acidentes nos últimos dez anos .

 

Por isso, é legítimo questionar o modelo atual de fiscalização.

 

Se a preocupação é realmente preservar vidas, por que não instalar uma base permanente durante toda a temporada? Por que não realizar campanhas educativas antes do início das praias? Por que não conceder prazo para regularização das embarcações, distribuindo informações, promovendo cursos rápidos e auxiliando os trabalhadores a cumprir as exigências legais?

Fiscalizar é necessário.

Orientar é indispensável.

Punir deve ser a última etapa, e não a primeira.

Quando a fiscalização passa a ser percebida apenas como instrumento arrecadatório, perde-se a confiança da população e enfraquece-se a própria legitimidade da ação do Estado Brasileiro a quem a Marinha está subordinada.

 

Araguacema precisa de parceiros que ajudem, não de obstáculos.

Precisa de instituições que ajudem a organizar o turismo, proteger vidas e fortalecer a economia local, e não de operações que acabam gerando medo, prejuízo e desestímulo justamente para quem trabalha honestamente e para quem escolheu a cidade para passar suas férias.

 

Segurança de verdade se faz com presença permanente, orientação, prevenção e diálogo.

Multar, por si só, nunca foi sinônimo de proteger.

 

Wagner de Freitas, é Jornalista

 

 

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