Imprimir esta página

CONFLITOS DE INTERESSE ENTRE DORINHA E AMÉLIO DESANDAM SUCESSÃO PALACIANA

Posted On Terça, 24 Fevereiro 2026 03:45
Avalie este item
(1 Votar)

Por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues

 

 

A reunião no Palácio Araguaia tinha pauta administrativa, mas terminou com forte conteúdo eleitoral. O governo anunciou a liberação de cerca de R$ 87 milhões para 53 municípios, recursos articulados pela senadora Professora Dorinha Seabra e pelo vice-presidente do Senado, senador Eduardo Gomes, com execução da Codevasf. Máquinas, pavimentação, pontes, caminhões compactadores. Investimento real, impacto direto nos municípios e capital político evidente.

 

O evento reuniu mais de 100 prefeitos, parlamentares estaduais e federais, membros do governo e pré-candidatos majoritários. A fotografia institucional era de unidade. O ambiente político, no entanto, revelou fissuras.

 

O ATO ADMINISTRATIVO E O PESO POLÍTICO DOS RECURSOS

 

 

Não há dúvida sobre a relevância do pacote anunciado. São recursos que fortalecem a infraestrutura urbana e rural, melhoram a mobilidade, impulsionam a produção agrícola e dão resposta concreta aos prefeitos que precisam de entregas.

 

Eduardo Gomes fez questão de destacar o papel da Codevasf na execução das obras e elogiou a gestão estadual. Em tom enfático, afirmou que “não é todo mundo que pode chegar no último ano de governo com a energia como se fosse o primeiro ano”, numa referência direta a Wanderlei Barbosa. O senador ainda citou o pai, Zé Gomes, ao dizer que “a cada cinco colheres de sopa de sucesso, cinco litros de humildade”, recado que mistura experiência política e sinalização de maturidade no processo sucessório.

 

Dorinha, por sua vez, reforçou o trabalho da bancada federal, destacou a estratégia por trás da criação das regiões metropolitanas e lembrou que os recursos destinados são fruto de articulação planejada. O discurso foi de organização, continuidade e responsabilidade institucional.

 

Mas enquanto as falas reforçavam parceria e sintonia, os bastidores contavam outra história.

 

AMÉLIO ENDURECE E CRAVA DUPLA DISPUTA

 

 

Em entrevista à jornalista Maju Cotrim, do site Gazeta do Cerrado, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Amélio Cayres, deixou claro que não aceita compor como vice na chapa de Dorinha. “Minhas chances de ser vice da Dorinha são menos zero. Não há diálogo entre nós”, afirmou de forma taxativa.

 

Não se trata de divergência pontual. É uma sinalização pública de que a base governista pode caminhar com duas candidaturas ao Palácio. Amélio reafirma que é pré-candidato ao governo pelo Republicanos e descarta disputar o Senado. Ao mesmo tempo, deixa aberta a possibilidade de diálogo com outros segmentos políticos, inclusive MDB e lideranças que orbitam fora do núcleo da professora Dorinha.

 

O recado é cristalino: se não houver construção interna, haverá disputa.

 

ARAGUAÍNA: INCERTEZA E ALERTA

 

 

Em Araguaína, o prefeito Wagner Rodrigues verbalizou o desconforto que se espalha pela base. Segundo ele, a indefinição do governador gera insegurança política. “A gente fica sem saber onde botar o pé”, afirmou. Wagner destacou que seu posicionamento é claro, mas que os sinais emitidos pelo Palácio são ambíguos. Ora circula a informação de apoio a Dorinha, ora surgem gestos que indicam simpatia por Amélio.

 

O prefeito foi além ao defender uma definição antes do prazo final partidário. Para ele, deixar a decisão para o último momento “gera desconfiança” e pode comprometer alianças construídas ao longo do tempo. Wagner reforçou que apoiará aqueles que ajudaram Araguaína, citando nominalmente Dorinha, Eduardo Gomes, o senador Irajá e o deputado Thiago Dimas, destacando que sua lógica é de gratidão institucional e não apenas alinhamento ideológico. A fala de Wagner não foi de confronto, mas de cobrança por clareza.

 

GURUPI: DEFINIÇÃO SEM HESITAÇÃO

 

 

Se em Araguaína há dúvida, em Gurupi há definição. A prefeita Josi Nunes foi objetiva: “Gurupi sempre esteve definido. A senadora Dorinha é a nossa candidata.”

 

Para Josi, o diálogo dentro da base é necessário, mas a posição política do município está consolidada. Ela reafirmou apoio à chapa composta por Dorinha ao governo e Eduardo Gomes e Carlos Gaguim ao Senado, ressaltando que são lideranças que historicamente colaboram com Gurupi.

 

A prefeita ainda ponderou que todos os companheiros merecem espaço e respeito, mas deixou claro que o grupo local já fez sua escolha. A fala sinaliza que parte significativa da base municipalista não trabalha mais com hipótese, mas com convicção.

 

O GOVERNADOR NO CENTRO DO TABULEIRO

 

 

Wanderlei Barbosa já afirmou que não subirá em palanque para falar mal de companheiros. A postura é institucionalmente correta. Porém, politicamente, o silêncio prolongado transforma-se em fator de instabilidade.

 

A base aguarda uma definição. Prefeitos precisam saber onde estarão. Deputados precisam organizar nominatas. Partidos precisam estruturar estratégia. A indefinição não paralisa o jogo, apenas o torna mais tenso.

 

O que se desenha é um cenário paradoxal: um governo que demonstra vigor administrativo, libera recursos robustos e mantém presença política ativa, mas cuja base revela sinais públicos de fragmentação na disputa sucessória.

 

RADIOGRAFIA

 

 

Na leitura do Observatório Político do Paralelo 13, o que se revelou nos bastidores do Palácio Araguaia e nos movimentos do fim de semana foi uma cena de autonomia calculada. Diante dos ruídos provocados pelas declarações do governador e do presidente do Legislativo nacional, chamou atenção o comportamento da senadora Professora Dorinha, do senador Eduardo Gomes e de Carlos Gaguim. No Carnaval e em Guaraí, o trio adotou uma postura discreta: sem tensionar o ambiente, sem responder a provocações, mas deixando claro que cada qual segue com agenda própria, pavimentando o próprio caminho. O gesto político foi silencioso, porém eloquente.

 

 

Ao mesmo tempo, o presidente da Assembleia Legislativa também dá sinais de que não ficará à margem desse tabuleiro. Já iniciou conversas e articulações com lideranças como Alexandre Guimarães, Vicentinho e outros possíveis aliados, numa movimentação que aponta para a construção de alternativas e eventual composição. O cenário desenhado indica, neste momento, a manutenção de duas chapas em campo, ambas ligadas ao Palácio, trabalhando paralelamente até as convenções. Resta saber se seguirão cada uma por sua trilha até o fim ou se haverá convergência estratégica na reta final.

 

Pelo que se viu no Palácio Araguaia nesta segunda-feira, a fotografia política é nítida: as pré-candidaturas seguem vivas e em processo de fortalecimento. Caberá ao governador e às principais lideranças, Carlos Gaguim na disputa ao Senado, Eduardo Gomes buscando a reeleição e Professora Dorinha consolidando seu projeto ao Executivo decidir, no momento oportuno, se caminharão juntos ou separados. Até lá, o que se observa é um jogo de resistência, cálculo e construção silenciosa de alianças, com cada grupo trabalhando para chegar às convenções com o máximo de musculatura política.

 

ENTRE O ASFALTO E A SUCESSÃO

 

 

O pacote de quase R$ 87 milhões fortalece municípios e projeta capital político. Mas também acelera o relógio eleitoral. Cada máquina entregue, cada ponte anunciada, carrega junto a pergunta inevitável: quem será o candidato do Palácio?

 

Hoje, o que está claro é que há duas pré-candidaturas dentro da base governista. O que ainda não está claro é se haverá síntese ou confronto.

 

Entre o asfalto que começa a chegar aos municípios e as pontes prometidas à população, a maior travessia continua sendo política.

 

E essa decisão não poderá ser adiada por muito tempo.

 

 

 

{loadposition compartilhar} {loadmoduleid 252}
O Paralelo 13

Mais recentes de O Paralelo 13